
Uma mulher precisa ser organizada, seus pertences classificados por itens, conforme o uso.
Para as joias, ela precisa ter pregos, ganchos, fios, caixas e caixinhas para localizar rapidamente qual joia a realçará ao sair de casa. Essa mulher vai pendurar uma corrente no pescoço ou enfiar um anel no dedo e uma pulseira presa ao punho ou ainda brincos parafusados na orelha. Cada item deve estar visível e fácil de pegar. (Minha avó dizia que uma moça organizada deve encontrar velas e fósforos no escuro).
Acontece que nem todas as mulheres têm a necessidade de ordem tampouco de encontrar velas no escuro ou ter suas joias organizadas. Nesse caso, esta mulher que escolheu dependurar uma corrente no pescoço vai se deparar com todas as outras correntes emaranhadas justamente naquela que escolheu para usar.
Ao tentar desvencilhar as correntes perceberá que o nó criado entre elas demandará tempo. Esta mulher, ao tentar decifrar por onde começar, terá que dispor o complexo quebra-cabeças sobre uma superfície lisa e branca a fim de melhor enxergar o fio da meada. Desmancha um nó daqui outro dali. Enrola um e desenrola outro, só para perceber que os fios se enroscaram ainda mais. Deseja descobrir qual das correntes irá desmanchar os nós e livrar a corrente que deseja. Em vão, quanto mais tenta, mais as correntes se enroscam em novos nós, bloqueando o caminho.
Volta ao começo na esperança de achar outra saída. Terá que buscar a outra ponta para tentar descobrir o trajeto desta que a impediu da primeira vez: outro nó pela frente. Trança e destrança daqui para acolá e nada muda de lugar. Impaciente e perturbada, lhe ocorre que suas correntes, presas umas nas outras, são o retrato da própria configuração da Vida: um emaranhado de caminhos se oferece até descobrir qual a libertará do nó górdio que pesa em sua alma.
Esta mulher olha novamente para o quebra-cabeça e decide solucioná-lo: busca martelo e pregos e os martela na parede, decidida a desemaranhar os próprios nós górdios que assombram sua alma: dependura cada uma de suas correntes em um prego!
História inspirada na lenda de Górdio, pobretão que se torna rei da Frigia. Seus habitantes passavam por uma crise e consultaram o oráculo. Este lhes disse que a estabilidade só viria quando o rei fosse um homem que apareceria num carro de bois. Górdio chegou ao local montado em seu carro e foi feito rei. Górdio consagrou o carro a Zeus e o amarrou com um nó complicadíssimo afirmando que aquele que o desfizesse ganharia o Império da Ásia. Contam que foi Alexandre, o Grande que cortou o nó a golpes de espada.
Moral da história: usa-se a expressão nó górdio para exemplificar uma solução rápida para um problema difícil!