Parodiando Kant, o conceito de mundo é uma abstração que só o homem é capaz de criar.
Cidade grande é como bandeira sem mastro: não tem dono, mas indica onde fica. São Paulo, por exemplo, tremula sem mastro, refúgio dos seus habitantes, os paulistanos.
Conheci um artista dos anos 70, sem sucesso algum, que se dispôs a deixar mensagens em cabeças grandes, lapidadas com caras de guerreiros gregos, magnificamente esculpidas em pedras translúcidas recortadas. Para remontá-las era um quebra-cabeça. Dentro delas, ele colocou mensagens do seu tempo, convicto de que um dia, no final do mundo, um extraterrestre ou uma barata saberiam lê-las: seriam os únicos vestígios da nossa vida moderna como a conhecemos. Acreditei naquelas esculturas futurísticas talvez porque mudanças significativas, aceleradamente, ocorriam.
São Paulo, em seu quarto centenário, ainda era uma grande aldeia. De lá para hoje, passou a ser desvirginada por largas avenidas asfaltadas. Elas rasgaram onde antes sobreviviam árvores centenárias. Velhos casarões deram lugar a prédios envidraçados, o cenário construindo uma nova memória. Favelas surgiram da noite para o dia e prometiam ali ficar. São Paulo acompanhava o ritmo da industrialização, povoando a cidade de veículos. A população, à medida que a cidade enriquecia, desordenada, aumentava exponencialmente. A perspectiva era de uma cidade para sobreviver a todos os seus habitantes e imigrantes, infinitamente. Por essa época, o desconforto de habitar em São Paulo, a terceira maior cidade do mundo, desenhava-se, sem dia para terminar.
Enquanto para os mais velhos a cidade grande contém a saudade de quem não quer mais lembrar, (hoje, dia 25 de janeiro, feriado ensolarado, ouço um realejo na esquina), 462 anos da fundação de São Paulo, os jovens paulistanos tatuam em seu corpo marcos históricos da cidade, verdadeiros cartões postais. Uma tendência que pode indicar, colada ao corpo, a vontade da perpetuidade de São Paulo que amam.
Esqueceram que nem as baratas saberão onde eles viveram um dia!
Escreveria em uma das inúmeras cabeças em que meu amigo colocou uma mensagem:
“sinto falta de um esconderijo onde possa entregar-me a um espaço calado de ruídos, onde o silêncio não transmite cheiros, as águas correntes são profundas”.
Só as baratas leriam!






























































Estes textos da minha irmã são cheios de supresas sobre os temas que aborda. Super interessante o tema e a forma como descreve sua visão sobre Sào Paulo e o 25 de Janeiro.
Meu querido irmão,
só hoje aprendi a responder a este seu comentário.
Obrigada mesmo. São PAulo é nossa cidade.Ela merece
uma palavra de carinho apesar de ser bastante difícil
viver e conviver com ela.Ela ainda consegue despontar
aqui e ali, emoções importantes. Lembra do realejo da nossa
infancia? Te amo.