Frente aos acontecimentos recentes espalhados pelo planeta, perde-se o sono. Por que não, caso o sono perdido, ler um livro que não tem fim?
Conheci Sherazade em um espaço onde mentes aflitas, corpos exauridos, procuram, justamente, uma trégua da desordem do mundo atual em que vivem. Sherazade descansava da obrigação de contar histórias a cada amanhecer. Sabia que, caso elas não agradassem ao rei, perderia sua vida. Contou-me que a cada dia, assaltada pelo terror, adormece com medo de não ser capaz de inventar, teme o dia a dia pois, enquanto tiver voz para encantar seus ouvintes, não morrerá.
Naquele spa é pedido aos hóspedes que busquem manter o silêncio nas horas das refeições. Observei que Sherazade, obediente ao conceito central da proposta da clínica, guardava silêncio. Calava-se nas horas de descanso – obrigatório – com leitura, quebra-cabeças ou subindo para seus aposentos e recompor-se das caminhadas nos verdes e silenciosos bosques umedecidos pelo orvalho e das exaustivas fisioterapias matinais.
Acontece que todos nós gostamos de tagarelar nas horas vagas, mas naquele espaço e tempo a proposta era descomprimir coração e alma e para isso o mais indicado é o silêncio.
Compassiva, Sherazade nos ouve atentamente, recolhendo, aqui e ali novos sentidos para remendar a sua própria história. Ela entende que o mundo é povoado de outras sherazades que, como ela, ao contarem suas histórias de vida, emendam uma história na outra! No entanto, como o rei faz quando das histórias de Sherazade no livro Mil e Uma Noites, ouve!
Por exemplo, em uma puxada de conversa, uma senhora loura, bonita, carioca e muito falante, logo foi perguntando para Sherazade qual a sua origem e onde morava.
Respondendo às perguntas, passou a ouvir que a mulher estava muito irritada com o marido emburrado. Este ameaçava voltar para casa e deixá-la sozinha com sua dieta. Declara que só se acalma longe do marido com o qual está casada há 45 anos e tem quatro filhos. Bastou adentrar a falar dos filhos, a conversa não teve mais fim. Conta desde o parto até a entrada na faculdade ou o porquê não gosta de uma das noras. No momento que se dá conta que tem um ouvinte, dispara a perguntar:
— Você tem filhos?
— Sim tenho!
— Onde estudaram?
— Em São Paulo.
— Os meus mandei estudar no exterior. Sabe, aqui no Brasil e principalmente no Rio, não dá né?
— É. Concordo. O Rio é muito perigoso, responde Sherazade, tentando evitar mais comentários.
Mas sem dar ouvidos, a mulher muda o conjunto família para falar de si mesma. O tema é saúde, porque engorda ou como emagrecer, dá dicas que considera ótimas e aconselha enfaticamente que o ouvinte deve, não só seguir seu exemplo como já passa o endereço do milagre.
E assim, notei que todos éramos sherazades e temos a nossa história que vai se engatando uma nas outras como nos contos contados no livro das Mil e Uma Noites. Elas passam a não ter fim nem começo pois sempre vão aparecendo novos personagens que se agregam à conversa.
Os temas se repetem. Os conteúdos de modo geral rodeiam, perigosamente a indiscrição e a esfera do privado.
— Eu pesava cento e 40 quilos. Já perdi trinta, conta uma moça relativamente nova, minha vizinha na hora das refeições.
— Trinta? Em quanto tempo? Interrompe uma senhora sentada à minha esquerda, já de certa idade, e coloca sua colher dando a entender sobre a questão. A moça não responde a pergunta da senhora.
— Isso não faz sentido. Fica nos cem. Eu peso noventa! continua a senhora.
— É, mas a senhora é alta! É muito difícil reaprender a comer. Antes da operação – informa moça no entremeio, — eu vivia deprimida. E a infeliz operada nos faz saber que retiraram 30cm do seu estômago e por conta do desvio os alimentos passam diretamente para o intestino. Em seguida emenda que seus movimentos peristálticos causam muito mal estar:
— Tenho que ( “têm que” é o início e o fim de qualquer conversa) mudar de hábitos e fazer exercícios.
— Mas quem é este médico que fez uma barbeiragem dessas? pergunta a intrometida senhora que sabe tudo sobre operações bariátricas, ao que a pessoa sentada à minha frente, apressa-se e afirma conhecer o médico que operou a jovem e o avalia como péssimo pois o pai dela teve uma experiência que quase o levou à morte.
Sherazade, ouvindo, paciente, o assunto em pauta, ousa falar:
— Acho admirável uma pessoa pesar 140 quilos e submeter-se a uma bariátrica desta envergadura. Eu faria o mesmo se estivesse em seu lugar! É difícil mudar hábitos! Vale a pena tentar. Coragem! diz, dirigindo-se à moça desacorçoada. Sherazade sabe que as promessas de boa conduta quanto aos hábitos serão esquecidas quando da volta para para casa, seguindo com os mesmos hábitos de sempre assim como os demais assuntos conversados.
Nas horas de jogar conversa fora, em uma área destinada para tal fim, junta-se um grupo diversificado de hóspedes no qual Sherazade opta em não opinar com suas histórias. O terreno é pantanoso! Receia criar polêmicas estéreis sobre o que é o Brasil se comparado com o mundo. Caso as posições sejam convergentes fica-se logo o “amigo” do momento, troca de e-mails, livros e sugestões no whatsapp. Com estes “amigos” , provavelmente não se conversará mais ao retornar para nossa casa.
Neste espaço reservado de cura passageira, onde a proposta de silêncio não é respeitada, paradoxalmente, aprende-se que nós humanos não nos diferenciamos em nada uns dos outros, contadores de histórias.
Com a mala cheia de inéditos relatos observados durante sua estadia no spa, Sherazade voltou para sua cidade – não muito contente com os resultados de cura pelo silêncio – mas incentivada a contar novas, inventadas e ou revisadas histórias.
Ela fechou o livro e não morreu na manhã seguinte.





























































