Crianças gostam de abrir a geladeira.
Quando eu era criança, abria várias vezes por dia, mesmo sem fome. Às vezes por tédio, outras por vontade de lambiscar. Era um movimento automático.
Eu ficava em frente dela, com a porta na mão, pensando no quê comer e se queria realmente comer alguma coisa. Uma espécie de relaxamento que ocorria principalmente quando a lição de casa parecia não terminar nunca.
A cada dia a disposição das coisas dentro dela mudava, o que dava razão para eu ficar mais tempo com a porta aberta procurando o que muitas vezes não se encontra em geladeiras. Era quando brigavam comigo dizendo que eu ia descongelá-la.
A todos era permitido abrir e fechá-la. Ela não tinha dono. Era uma GE, cujo logo de metal brilhava, inciso em duas letras sinuosas na porta e, abaixo delas, escrito em bonita letra cursiva lia-se “General Electric”. O logo era elegante e a geladeira formosa e branca, grande e espaçosa, carregava este símbolo com garbo.
O movimento de abrir e fechar, com o TLEC característico, tanto na ida quanto na volta, – apesar de que na volta era mais sonoro –, é lembrança até hoje. Em dia de feira, a profusão de novos alimentos, que enchiam os vácuos deixados durante a semana, era um marco no meu calendário, com a incrível capacidade de cravar em mim, ao abrir e fechá-la, um ritmo, uma cadência do tempo e a segurança de que nada mudaria em minha vida.
Quando o silêncio baixava, podia-se ouvir uma espécie de RUMMRUMM, quase silencioso, com o qual eu adormecia agradavelmente. Sabia ser ela o único “personagem” da casa que trabalhava de noite, quase uma amiga secreta. A primeira sensação de autonomia que tive dentro de casa, além dos interregnos da lição do dia, foi a permissão de abrir a geladeira sem muita razão. Ela viria a equivaler à televisão e ao rádio vitrola, que também poderiam ser veículos para meu sentimento de independência, mas nessas só pude mexer muito mais tarde.
Hoje, tenho certeza que ninguém ligava para ela, porém fazia parte da minha vida que ali escorria entre a cozinha, a copa e meu quarto.
Quantas vezes não se abre uma geladeira só para espiar, automaticamente, na tentativa de obter resposta para uma dúvida
fantasma, ausente a razão.
Continuo com o hábito até meia hora atrás!






























































“no abrir e fechá-la, um ritmo, uma cadência do tempo e a segurança de que nada mudaria em minha vida.”
Seus textos são incríveis Bettina…obrigada por compartilhar.
obrigada Elaine por ler GE e extrair um dos sentimentos ao abrir a geladeira quando se é criança.
Seu comentário é um incentivo importante.
Obrigada mesmo!
A Geladeira GE, fez parte das nossas familias e ganhou mais vida ainda na sua escrita.Concordo, plenamente com aquela visão nem tanto infantil, que sobrevive até hoje nas nossas memorias, visão esta de uma Amiga que morava na nossa casa. Bettina, esta sua capacidade de despertar os sentidos através de uma Geladeira, ( imagine você, que durante a leitura, me vi na casa onde passei, minha infância e adolescência,com meus irmãos e meus pais) é a mais perfeita combinação do seu estilo e da sua sabedoria.
querida Aninha,
para receber um comentário como o seu é que escrevo. É o meu incentivo.
Meu desejo é despertar no OUtro, o mesmo que lembranças, sensaçoes,fatos e fotos despertam em mim.
Compartilhar com pessoas queridas como voce. Obrigada. Envie sempre que sentir que “bateu” com v.
Com carinho e muito respeito pelo seus escritos, sempre B