Infinitas são as transformações que dizem respeito às mudanças no modo de viver, pensar e julgar.
Esta certeza se consolidou ao ser testemunha de uma história comovente de amor e fidelidade entre Alcides e Hermeto, um casal, amigos meus.
O casamento deles perdurou por 17 anos quando ocorreu a sua separação, porém não sem antes terem concordado de fazer um testamento no qual cada um, em caso de doença ou morte, cuidaria do outro. José, fiel à memória e ao assinado, cumpriu todos os desejos sem omitir uma só frase do testamento ao ser informado de que Hermeto havia falecido.
José, como testamenteiro me contou o que foi o suplício do trâmite burocrático necessário para levar Hermeto a sua morada final, lugar expresso no testamento. Diferente de José, Hermeto optou pela cremação.
A cada passagem do relato, fui acolhendo as lágrimas do amor que José sentia eterno. Memórias, quando honestamente sentidas, voltam como verdades que foram!
Ousei perguntar a José como Alcides, hoje seu companheiro de longa data, recebeu o fato dele desejar cumprir, à risca, a antiga e tão forte relação.
José respondeu:
—Maravilhosamente bem. Ele está me acompanhando a cada passo, imagina você, Alcides tentou esconder as cinzas de Hermeto para que eu não as visse como sendo o “seu corpo presente” na prateleira enquanto ele esperava resolver a principal promessa testamentária: licença para levar junto a si, no avião, as cinzas de Hermeto.
Nesse momento pensei com meus botões de viúva: será que meu companheiro atual teria o mesmo zelo para com as minhas cinzas e mais, o mesmo carinho de Alcides em relação ao meu ex-marido, falecido?
Novamente enxuguei minhas lágrimas quando José voltou a falar em Hermeto.
— Ele me fez assinar que suas cinzas fossem jogadas no Mar Egeu. Fiquei sem saber como cumprir o seu desejo mas, prontamente, Alcides disse que me acompanharia nessa viagem em nada prazerosa. Concorda?
E assim aconteceu.
Viajaram até Mykonos e sob o sol maravilhosamente claro e brilhante, jogaram as cinzas no Mar grego de tantas batalhas passadas.
Promessa cumprida não mais haveria lugar para fantasmas: eles estavam onde deveriam ficar: no profundo mistério da vida e da morte: o mar.
Consolei como pude meu amigo abraçando-o, feliz por ele: um testamento não é um papel que aceita tudo, como dizem. Aliás deveriam só aceitar as verdades! Cumprir um testamento é penoso para quem fica, mas é necessário limpar, nos cantos traiçoeiros do pensamento, os restos mortais do passado.
Deixei José e sai pensando sobre fidelidade, lealdade e ética.
Sou responsável em participar do processo de mudança de paradigmas porque eu, avó, conheço a baliza do Tempo que serve para acompanhar e reconhecer as transições na maioria das vezes obrigando à uma transformação individual de verdade!






























































lindo!