
Quando me perguntam se vi ou estive em algum lugar específico de um determinado país ou cidade, participo e conto sobre as minhas próprias experiências de viagem. Trocar idéias sobre qual a melhor companhia aérea, o melhor hotel ou o mais em conta, é uma conversa amena. Há ainda troca de informações sobre o prato ou restaurante inesquecível.
Mas gosto mesmo é de viajar com os escritores capazes de empolgar ao descreverem a alma dos países que visitam. Eles detalham os sentidos frente ao desconhecido. Viaja-se nas entrelinhas da sua história, nos espantos, nas belezas e feiuras, da natureza e de seu povo. O lugar, nas páginas da literatura de viagem ganha, para o leitor, a dimensão do sublime.
Aterrissei na Rússia com quatro imagens na cabeça e pouco conhecimento literário. Uma das imagens era de atléticos dançarinos com botas vermelhas e longos bigodes embebidos em muita vodka e a mãe russa, a babushka com seus filhotes aconchegados em seu ventre. A quarta, a violência e a barbárie impingidas aos cidadãos no tempo do comunismo.
Essa fantasia desvaneceu- se ao longo da visita para dar lugar a uma estranha mistura de medo e insegurança em relação à sua singularidade. Grandiosa, emana poder incontestável. Pobre e rica, dourada e cinza, pueril e adulta experiente. Pós-moderna, com suas fronteiras indevassáveis e seus segredos enterrados. Poderosa. Intimidadora.
Meu olhar de estrangeiro viu o majestoso, surpreendeu-se com o inusitado, contudo, o sentimento sempre demarcado pela presença invisível do Poder Absoluto.
Forte e presente em igual intensidade, o orgulho de outrora e o de hoje. Um país guardião de mistérios por alguma secreta decisão divina, explícita, nos muitos monumentos de mármore e bustos de heróis de ferro, apologias a uma pátria de grandeza ancestral ilimitada. Um país de vastas estepes geladas, de habitantes duros no trato que falam uma língua indecifrável.
A cidade de São Petersburgo, construída ao longo do rio Neva, abrigo barroco e dourado opulento dos czares, contrasta, sem medo de errar, com as pesadas e cinzas edificações de Moscou, de estilo sem referência clara na história da arte. Nela se identifica a arte brutalista de estados autoritários, salvo seu metrô majestosamente iluminado por lustres de cristal do século XIX. E claro, não há quem não se deslumbre com o famoso cartão postal das torres coloridas da Praça Vermelha.
Procurei pela real dimensão da Rússia, a profunda. Aquela descrita por músicos, poetas, literatos e aristocratas russos. Pude sim, senti-la. A Rússia fascina e assombra pelo que esconde: uma impenetrável magia.
Foi porém, ao adentrar nas muitas igrejas ortodoxas, incensadas a náusea, que aspirei a religiosidade e a penúria em que viveram os iletrados camponeses servindo aos seus senhores. Não me impressionaram suas cúpulas douradas reluzentes. O seu interior é tenebroso. Paredes chamuscadas por muitas velas, ícones cujas pinturas foram se desbotando com o tempo, o olhar penetrante e recriminador. Não há bancos. O crente é colocado, assim, imerso na penumbra, circundado por volutas que parecem abraçá-lo na sua piedade. Não é o abraço aconchegante, amoroso e solidário do interior faustoso das igrejas católicas.
Voltei com a sensação de que a Rússia é um cenário preparado para uma ópera que foi cancelada, porque outra história foi introduzida, passando o cenário anterior a não servir mais para o enredo.
O ouro, o estuque e os brilhos vibrantes dos czares não se sobrepõem ao concreto triste e cinza da Revolução Bolchevique: esta fala mais alto! Enxerguei, entre Moscou e São Petersburgo, na curva de cem anos do Tempo, a ruptura sangrenta cuja chaga ainda é possível sentir aberta. Tive a nítida sensação de que, entre estas cidades, arranha-se uma história escondida e estática.
Creio que só podemos encontrar a Rússia e acessar sua alma nas páginas de sua grandiosa literatura humana e universal.





























































Identifiquei-me completamente com o sentimento que ressalta neste texto, após uma visita à Rússia. Paira um mistério e um silêncio no ar…Uma espécie de cortina que se mantém fechada ao mundo.
Com certeza Otilia. Creio que todos que lá estiveram sentiram o mesmo que você. É uma cortina transparente, de voile através da qual se percebe as grades de uma prisão e ou submissão de um povo face a ditadores que por ali
exercem seu poder. Tanto assim que ouvi da guia que chamam o Putin de Putim primeiro, alusão ao grande Pedro
que construiu S.Petersburg que, por mais que desejasse uma Veneza e Paris, a construiu ao seu modo e gosto.
Obrigada por comentar. Um incentivo para continuar escrevendo.
abraço
B