Um presidente imaginário, após passar pelo fogo do inferno, aprova a eutanásia como um direito de escolha e dá indulto a um assassino, justificando sua decisão.
A decisão do presidente é conceder o indulto à mulher que justificou o assassinato do marido pelos maus-tratos maquiavélicos que sofria; e, ao mesmo tempo, negá-lo àquele que justificou seu ato porque não suportava mais cuidar da esposa com Alzheimer.
Tendo dado o spoiler do filme A Graça, de Paolo Sorrentino, o caro leitor pode, agora, me criticar ou perdoar pela falta de etiqueta eletrônica ao recomendar o filme. Mas, meu objetivo aqui é esvaziar – ou melhor, desconstruir – a palavra perdão, que, a meu ver, é o sentido principal que o cineasta quis realçar.
Aceito a crítica quanto ao spoiler – até porque o leitor tem sempre razão – e justifico: a beleza do filme reside em um único pensamento do presidente/juiz quanto ao dilema moral:
“O perdão é a beleza da dúvida.”
O juiz concebe a dúvida como bela porque apenas ela pode perdoar.
Recusar a eutanásia nos tornaria torturadores? Autorizá-la nos tornaria assassinos? Em suma: podemos matar ou perdoar quem nos causou mal?
Na mesa de domingo, ainda sob o impacto do filme, mais quieta do que costume, passeio meu olhar amoroso ao redor dos meus filhos. Devo ou não abrir uma discussão, na verdade filosófica, sobre a dúvida e o perdão? Opto pelo sim!
Encontro apenas a imagem de uma estação de trem, o embarque de novos passageiros e ilustro os pais como sendo a locomotiva. Não esqueço de mencionar o cobrador que picota os bilhetes. A dúvida, exemplifico, é se os nomes de meus filhos estão impressos nesses bilhetes: a beleza do perdão dado diariamente seria quando a locomotiva descarrila.
Voltando para casa, um vago sentimento de culpa flutuava na superfície da historinha. Resolvi me perdoar e o sentimento estendeu-se aos meus filhos, não importa. Sempre serão perdoados, mesmo na dúvida se devo ou não?






























































