O que Eliza, Stella e Sahra têm em comum comigo? Respondo: a aceitação de nossos defeitos, os aplausos pelas vitórias e as lágrimas pelas passagens dolorosas. Saímos do enterro de Eliza para brindar o nosso reencontro. Mas, conforme a conversa avançava, percebemos que o tempo havia se desfeito: o passado não era mais âncora e o presente não desenhava o futuro. Sabíamos que em tempos descompassados, a felicidade é uma constelação de coincidências. São raros os pontos que brilham como estrelas em noite de lua cheia. Sabíamos também que, ao dividir a vida em fases rígidas, sofreríamos duas vezes: uma pela perda em si, outra pelo espaço vazio que ela insiste em ocupar.
Como sabiamente diz Clarice Lispector: “Viver ultrapassa o entendimento”!
Como presenciar o humano inerte, preparado para desaparecer como gente debaixo da terra?
Sahra, nossa amiga, para quem a vida é um drama, largou os talheres. Cruzou os braços sobre a mesa e deixou que o pensamento transbordasse: — Durante a cerimônia, ocorreu-me uma reflexão paralisante, começou ela. – Vocês lembram do busto de gesso em cima da mesa da Eliza? Logo na entrada?”
Stella e eu concordamos. Sahra continuou:
—“Uma mulher de traços perfeitos, bochechas rosadas e lábios carmim… a cabeça inclinada, jogando charme para uma plateia invisível.
—”Era o jeitinho próprio da Eliza!” É mesmo, opina Stella, interrompendo as reflexões poderosas de Sahra.
— “Pois eu acho que somos apenas isso: um busto de gesso na forma de um humano. O que nos define é termos o dom do ilusionista: essa vaidade embalada nos padrões que cultivamos a fim de preencher espaços vazios dentro de nós. Somos submissos à pequenez frente à grandeza da liberdade possível. Não damos espaço para ela nos construir como um ser inteiro. Desaparecemos antes de concluída esta jornada.
Visivelmente tomada por seu pensamento, Sahra sorve agitada toda a coca cola para prosseguir:
—”Ao ver o corpo findável da Eliza, senti a necessidade urgente de enterrar junto com ela a minha própria soberba. Quero estraçalhar meu molde. Quero ser Existência, sem intromissões indesejadas, mas continuamente presentes no meu enredo. Caso contrário estarei sujeita a reduzir-me às circunstâncias. Quero ser cremada. Quero que meu corpo transmute em pó, sem deixar vestígio de que um dia fui uma forma.
Assustada, baixei os olhos, busquei por ar e disse que Clarice tinha razão: não há entendimento sobre o viver. Stella, empalidecida, apenas emitiu um fraco som informando que não pensa na morte. Tem medo dela e a imagem da sua amiga, ali imóvel no caixão, pedia para ela fugir dali. Na tentativa de resgatar o grupo, trouxe à mesa uma fofoca macabra: – contei que a família de Eliza não realizou o seu desejo expresso de ser cremada. A família escolheu ficar fiel aos preceitos dos ritos de uma religião que proíbe a cremação. Fizeram Eliza, mesmo a caminho da sua Eternidade, adaptar-se ao que não acreditava – ela vivia a herança judaica, mas não a convicção religiosa.
A partir desta indiscrição, acrescentei inconformada:
— “A liberdade nos coloca um horizonte, mas também um abismo de incongruências. Na maioria das vezes, nos falta a coragem de nos lançar no vazio delas. O desejo de Eliza de desprender-se do molde foi negado. Sua liberdade póstuma foi suprimida porque a morte, esta sim, ultrapassa qualquer entendimento!






























































