Hoje recebi pelo correio, muito bem embalado o livro Mrs. Dalloway. Para obtê-lo aspirei todo o pó mágico dos sebos. Ah, que alegria encontrar títulos esgotados que tanto procurava!
Por conta do desejo de me conectar com Virginia Wolf, comecei a lê-lo imediatamente, sem saber que viveria uma experiência inédita: li a história sob o olhar do leitor anterior. Havia anotações nas margens. Era como discutir o livro com um interlocutor invisível. Cheguei a brigar com ele ao discordar de uma conclusão, para depois agradecê-lo por elucidar uma passagem que não havia entendido. Era um leitor culto. Tentei deduzir, pela letra, se era homem ou mulher, se lia deitado ou sentado. Às vezes a escrita era redonda e bem-feita, sugerindo uma mulher em uma cadeira. Outras, um garrancho de quem escreve na cama, sem apoio, ou talvez de um médico. Uma letra miúda e inclinada à margem poderia ser de outro leitor, discutindo com o primeiro. E se marido e mulher tivessem lido o mesmo livro? Não encontrei uma terceira caligrafia, mas deixei também minhas observações, com minha letra, diferente das outras duas.
Quando terminar de lê-lo, ele voltará a um sebo. Gosto da ideia de não romper a corrente de pensamentos e quero deixar para o futuro a minha marca no canto das páginas. Seria como se o livro e a leitura de Mrs. Dalloway fossem hereditários.
Porém, uma das anotações à margem chamou-me a atenção de modo especial:
“Veio então o mais raro momento de toda a sua vida, ao passarem por uma urna de pedra com flores. Sally parou; colheu uma flor; e beijou Clarissa nos lábios. O mundo inteiro poderia ter desabado; os outros desapareceram; estava ela sozinha com Sally. Foi como se tivesse recebido um presente, embrulhado, e lhe houvessem dito que assim o conservasse, sem olhá-lo — um diamante, uma coisa infinitamente preciosa, embrulhada, e que, enquanto caminhavam (daqui pra lá, de cá pra lá), ela ia descobrindo, ou o seu esplendor irradiava através do invólucro, uma revelação, um êxtase religioso! — senão quando o velho Joseph e Peter passaram por elas:
— Contemplando as estrelas? Indagou Peter.”
Ao final desse episódio, à margem, havia observações afirmativas, sublinhadas a lápis preto: “BEIJO DE CLARISSA E SALLY” e, quando a autora descreve a sensação do beijo em Clarissa, a anotação dizia: “REAÇÃO DE BEIJO”.
Espantou-me a reação do meu interlocutor, pois essa avaliação resume apenas o óbvio do texto de Virginia Woolf.
Por que será que aquele momento, descrito com tanta maestria e emoção não o tocou como a mim, na beleza e na poesia de um instante único, interrompido?
Terá ele se incomodado com a cena? Talvez um diretor de teatro anotando indicações para uma cena? Um psiquiatra interessado nas sensações de um beijo entre duas mulheres?
Jamais saberei. Mas, com certeza, continuarei indo a livrarias para passear, folhear e saborear títulos, movida por uma curiosidade humana incorrigível. E continuarei também a procurar, nos sebos, livros esgotados — e, de agora em diante, só escolherei aqueles que trazem anotações de outrem nas margens. Essa é mais uma forma de receber de estranhos o que, antes de mim, sentiram e pensaram ao ler as mesmas páginas.






























































