
Reinterpretação da Pietá de Michelangelo, por Jan Fabre. Exibida na Bienal de Veneza de 2011.
Num domingo de Páscoa, sem aviso prévio, meu companheiro saiu pela porta e não voltou mais. A porta deu um estalo e, ao fechá-la, paralisada, fiquei pregada no chão.
Aos poucos, entre a imagem de Cristo crucificado, surgiu a do meu martírio carregando a cruz pela da Via Crucis. Quantas plaquinhas indicativas do calvário terei que viver? Perguntei-me. São quatorze paradas contei.
No trajeto, Madalena acolheu as lágrimas de Cristo, seu rosto transfigurado marcado no guardanapo sobre a mesa da sala de jantar. Por quanto tempo pousará, em cada uma de suas dobras, a traição cometida?
Sobrevém o vazio: como ressuscitar sem mãe para me tomar nos braços, colocar no colo meu corpo languidamente morto?
Das plaquinhas vencidas, as mais íngremes são a quarta e a décima quarta. Na quarta, emerge a saudade incrédula da dor metálica misturada aos cacos de vidro pontiagudos: a falta da presença física. Tocar o corpo presente, aquele que fazia amor com você, o silêncio do prazer esparramado em murmúrios sobre a cama desfeita.
Perguntei-me se não seria melhor me apaziguar com os trabalhos de Hércules. Doze seriam as etapas a serem vencidas. Decidi pelo ângulo religioso: uma separação se vive no silêncio de um convento!
As três primeiras etapas foram vencidas sem louvor, inundadas do choro vazio de compreensão. Assim sendo, a história fica sem trama, enredo nem voz.
Mas, como não voltarei à Terra, preciso aplicar-me para chegar ao fim do calvário, contando o melhor que aprendi. Mas, por não saber se vencerei as quatorze plaquinhas pregadas no muro, tentarei ser o mais econômica e precisa possível. Cristo, ao contrário de mim, é forte. Cultiva o perdão! Eu não!
Senão vejamos: Na quinta e sexta plaquinhas, nesta ordem mesmo, emerge o fantasma da saudade que se enrola na solidão, seguida da raiva faminta. A sétima placa desenha o convívio com a sombra alheia: o lado sombrio do Outro, motivo de decepção e incredulidade.
Na oitava, é de tristeza, simples, sem alarde, que remonta às horas do sonho. Quanto às placas seguintes, desponta o medo de não vencer as plaquinhas adiante. Nesse momento, porém, nasce a atração de se viver a liberdade, à margem da ferida mas… faltam ainda as seis últimas passagens a serem superadas e, para elas, só há cura se houver o desejo de esquecer que uma parte da sua vida não será lembrada como memória, descascada e descolorida pela ação do tempo.
Nas seis últimas tomamos contato com a Perda Irreversível. Ela se amarra, solitária, intrometendo-se continuamente enquanto busca apaziguar o sofrimento. Sofrimento, sim, mas não mais por conta do ser amado que se foi.
Chegando na décima quarta, o último aprendizado, nos damos conta de que a presença da perda faz parte, contínua, durante todo o trajeto e continuará fazendo, mesmo se as treze anteriores foram vencidas. Mesmo se em posse da alegria de viver por inteiro, ela está ancorada ao mortal amor que carrega.






























































Olá Betina, adorei este seu texto. O paralelo traçado com a “via sacra” onde com tanta coragem a personagem purga a sua dor é perfeito. Você foi capas de envolver e fazer o leitor sentir todas as sensações que a separação provoca. Belo texto.
Bjos.
Léo
CAro Léo
Novo ano, novas tentativas , sendo uma das principais – além de rever os amigos – responder à leitores ( poucos) atentos e sensíveis ao texto e ao que desejo
exprimir. V. disse tudo: purgar a dor. É uma via crucis pois não há atalhos e nem placas indicando a direção a seguir.
Muito obrigada por ler e enviar seu comentário. Um abraço carinhoso, sempre Bettina