GE

Crianças gostam de abrir a geladeira. Quando eu era criança, abria várias vezes por dia, mesmo sem fome. Às vezes por tédio, outras por vontade de lambiscar. Era um movimento automático. Eu ficava em frente dela, a porta na mão…

No café

Um dos prazeres em São Paulo é ir aos sábados a uma livraria e lá se perder pensando no que outros já pensaram por nós e, saciados, tomar um café com brioche na lanchonete da livraria. Este era o cenário de uma conversa proibida que ouvi, hábito deselegante, mas sempre assunto para uma crônica. O risco é pegar…

Quarto 16

Em cima da mesinha, seus livros. Sobre a cadeira, a roupa usada do dia; espalhado sobre o banco, o resto. Um abajur e o vaso com uma flor oferecida. Sombras criadas no pátio, amareladamente iluminado, adentravam por duas grandes janelas sem venezianas. Esvaído de tempo, o pano da cortina marcado por cada hóspede que consigo…

Alvorecer

Abro meio olho. Alvorece através da cortina. Quanto tempo ainda falta para eu levantar? Preciso me certificar com precisão, mas me lembro do relógio chinês que comprei na papelaria – encantada com o fato dele projetar no teto a hora em vermelho. Na segunda manhã, igual a esta, já estava inutilizado. Conformo-me, então, em acompanhar…

A barata e o realejo

Parodiando Kant, o conceito de mundo é uma abstração que só o homem é capaz de criar.   Cidade grande é como bandeira sem mastro: não tem dono, mas indica onde fica. São Paulo, por exemplo, tremula sem mastro, refúgio dos seus habitantes, os paulistanos. Conheci um artista dos anos 70, sem sucesso algum, que…