Abro esta crônica com um verso de Álvares de Azevedo, escritor brasileiro (1831-1852), do poema Minha Desgraça na obra de Lira dos vinte anos.
Minha desgraça, não, não é ser poeta,
Nem na terra de amor não ter um eco,
E meu anjo de Deus, o meu planeta
Tratar-me como trata-se um boneco…
Não é andar de cotovelos rotos,
Ter duro como pedra o travesseiro….
Eu sei…. O mundo é um lodaçal perdido
Cujo sol (quem mo dera!) é o dinheiro…
Esta estrofe me remete ao Brasil que agora se apresenta: “andamos de cotovelos rotos, ter duro como pedra o travesseiro, no lodaçal perdido cujo sol é o dinheiro”.
Este poema sai de uma pena do período romântico brasileiro influenciado por François -René Chateaubriand, escritor francês, responsável por cunhar o seu tempo – de Mal du siècle. Este movimento passa por uma crise intelectual como protesto aos dogmas do classicismo, seus valores mas ,sobretudo, contra a realidade social e política da época. A expressão artística no final do século XVIII e XIX exprime desilusão, melancolia, frustração e negativismo.
Explora o desconforto do vazio existencial deixado pelo racionalismo iluminista.
Isto posto, claro que muitas “coisas”mudaram de lá para cá. Algumas para melhor outras para pior. Para melhor, no aspecto das descobertas científicas e nos
aspectos positivos tecnológicos mas, só não mudou ,como piorou, no descaso social e mesmice na ação política de outrora e de hoje, ambos centradas no egocentrismo do poder.
Com este pensamento a escurecer minha alma, preciso expor e, penso, que não sou a única desnorteada. Este estado de espírito tem haver com a indagação de como adaptar-se ao novo mundo que se move a cada passo que dou para tentar entender por onde ando.
Bem sei, por tantos conselhos recebidos, que deveria me distrair, não ler o jornal, não sentir e apenas pensar em abobrinhas. Viajar, estar com pessoas, em grupo, tomar suco de abacaxi com gengibre ou ainda ler todos os livros que entendidos no assunto recomendam.
A outra opção que se apresenta é adotar a ignorância: que se lixe o manicômio ao qual somos obrigados a nos adaptar! Esta recomendação, contudo, escapa a minha compreensão. A ignorância do mal, de Hannah Arendt, afeta sobremaneira aquele que reflete.
Assim sendo, não segui o conselho de simplesmente descartar o Instagram do meu cotidiano. Não fugirei Dele. Não fugirei da realidade irreversível. Ele não deixa de ser um instrumento de combate aos enlevos nocivos que divulga. Além destes predicados, Ele se oferece para me avisar a quantas horas estou ligada e eu, dai, ser impelida a desligá-lo!
Encontrei uma convivência legal com Ele: tocar nos três pontinhos que aparecem na telinha, à direita. Esse recurso abre uma gama de opções, entre elas o “não me interessa”. Vitoriosa, Ele me retornou ao nao mais poluir a minha telinha com anúncios imobiliários, propaganda de produtos, consultores de moda e de modos, influentes, médicos disfarçados em mágicos e suas poções milagrosas, enfim, propaganda paga em geral.
(Uso bastante as receitas de comida e dicas incríveis como transformar uma mera garrafa pet em um vaso onde nascerá salsinha ou boas dicas para se proteger de larápios quando em viagem). Não as aplico mas divertem. Insiro um coração vermelho para os assuntos que interessam e respondo mensagens com emojis expressivos do meu estado de espírito da hora.
Escolho postagens que exemplificam história e desenhos de mapas e pílulas filosóficas de indivíduos que influenciam e ou transformam ideias, jornalista que posta fatos criveis. Procuro escolher os “informantes” para seguir, porém muitas vezes esbarro em postagens nada haver mas – e não sei porque – paro para ler assim mesmo. É onde mora o perigo! Mas, ah! adoro o bloqueador que permite indesejar. Ele me oferece um prazer maquiavélico: um a menos para perturbar minha saúde mental.
Contei até aqui uma experiência que deu mais certo do que errado quanto ao uso do Instagram e o processo da escolha quanto ao excesso de informação.
Mas por que insisto no uso do Instagram que observo ser colocado como o ladrão do nosso tempo?
O Instagram informa, ensina, divulga as fakes e as real news igualmente reforçando nossa capacidade de escolha e preferências no que cremos ou não. Ele divulga, a critério do grande público, as falsas informações circulantes sobre fatos verdadeiros. Ele nos obriga a refletir sobre o porquê estamos sujeitos a informações descabidas, irreais, que confundem o certo e o errado.
Com o advento da IA, para o bem ou para o mal, não tão novo instrumento de informação impessoal mas irreversivelmente poderoso, penso que nos encontramos em uma encruzilhada: posicionar-nos, ou não, frente uma nova maneira de escravidao ( ou será colonização?) à qual nos submetemos sem nos indagar se somos escravos de meia dúzia de exploradores trilionários do algoritmo.
(Preciso informar meu leitor que já adentrei na década dos 80 anos e já sei que logo mais vou sentir saudades do Google e do Instagram!)
Minha percepção hoje, sobre o vindouro uso exclusivo dos algoritmos, não seria tão pessimista caso estivesse em plena juventude, desconhecesse a história do mundo e dela deduzisse as consequências. Não tivesse aprendido a ler nem a fazer cálculos de cabeça ou escrever em letra cursiva.
Melancólica? talvez!
Defensiva? Não!
Desconfiada? Certamente!
Romântica? Não!
O uso utópico consciente não nega a realidade. Aceita o real acontecendo sem deixar de conferir o que realmente importa: o seu desejo para o amanhã!
Confesso pois: por mais mal de século que sinta ao refletir sobre este momento, procuro uma saída contemporânea, longe do século XIX.






























































