Este texto é datado (15/08/2017) e está a mais de meio século do evento do sutiã mas, certamente não está tao longe da realidade de hoje.
Escrevo-lhe esta carta para contar o que aconteceu conosco, mulheres, quando você nos incitou à liberdade jogando o seu sutiã no lixo. O sutiã, representativo da prisão em que as suas seguidoras se encontravam.
Esta foi talvez a imagem mais importante que guardei da passagem de menina-moça para mulher sem destino certo, e muito menos para o destino de mulher. Por anos, oscilei entre jogar o sutiã no lixo ou usá-lo como sustento dos meus seios. A vida, ou as escolhas, nem sei mais, fizeram com que eu acabasse usando-os até hoje.
(Você não imagina o que anda acontecendo com os seios das mulheres: montes ou montinhos de silicone, digo, seios implantados, sustentados por sutiãs cujo bojo é menor do que o seio. Duas meias-luas tornam-se visíveis ao primeiro lance nos decotes sutis e provocadores, feitos sob medida para mostrar seios de menina em corpo de mulher madura).
Lembro você despertando nas mulheres anseios que não sabiam ainda exprimir – a consciência da condição de submissas ao desígnio dos homens. A teoria desencadeou, no espaço histórico das relações entre homens e mulheres, uma cadeia de discussões em busca de definições sobre o que vem a ser o machismo em contraparte ao brado do feminismo.
O fato, porém, é que nem um desabrochou como esperava-se de uma flor na primavera e o outro, forçado a reagir a perda de seu posto cedeu a contra gosto. Os ganhos e perdas de cada lado, ainda não estão claros.
Passaram-se 50 anos, e hoje pergunto se você não deveria ter completado a sua revolta, antecipando-nos os conflitos e as contradições que teríamos que passar para alcançar o direito de Ser uma mulher independente de um homem. Tenho certeza de que imaginou a consequência de seu ato corajoso e libertário: a mulher reivindica, não sem luta ainda, seu lugar no universo masculino enquanto o homem, em contrapartida, não entende ser irreversível o resultado de seu ato revolucionário ao desprezar o sutiã que a sustentava na condição de mulher submissa.
É verdade que um enorme contingente de mulheres “briga em pé de igualdade” com o homem. Hoje ela pode ter um filho sem pai, lavar a louça quando lhe dá vontade, prover os recursos para oferecer um bom jantar para si e uma amiga, não obstante, o machismo ainda imperar – apesar de negá-lo fortemente e a mulher continuar a reclamar de suas ideias preconcebidas.
Como lhe disse, você deu a nós um direito. Um direito à individualidade, à realização, a ouvir a nossa própria voz. Assegurou- nos que podemos, mesmo sozinhas, sobreviver.
Mas, entre as mulheres independentes e os homens infelizes, instala-se um sentimento de solidão na ambivalência das coisas. As conversas entre eles esbarram na sensação de perda de algo imprescindível como o pertencimento um ao outro. Não poucas vezes presenciei conversas sobre o sentir-se só! Tanto de um lado quanto de outro.
Mas deixando de lado conjecturas tenho que te contar um resultado talvez não previsto por você.
Prega-se uma inversão na ordem das coisas: se uma criança ainda menina que se sente como um garoto, pode vestir-se como menino e este por sua vez pode vestir-se como menina. Espera-se que se definam quando assim desejarem. Os banheiros públicos, que na sua época indicavam na placa da porta um desenho figurativo indicando (para) mulheres e (para) homens. Caso um palestrante ou professor dirigir-se a uma plateia, ele deve saudar, na abertura, não mais como senhores e senhoras presentes e sim cumprimentar como prezados todos ou todes.
Por estas e por outras, imagino que, um dia, os conceitos como machismo e feminismo não serão mais mencionados nas relações sociais e afetivas. Desaparecerão como o urso panda na China ou fadados a derreter-se como o gelo na calota polar.
Acredito que em poucas gerações, as relações de igualdade cumprirão a profecia lançada por você quando jogou o sutiã no lixo pensando na independência da mulher tão somente.
Desejo que seu primeiro passo germine como uma revolução voltada não só para as oportunidades iguais para homens e mulheres, mas para a desigualdade entre os mais favorecidos e os menos favorecidos financeiramente independentemente de seu sexo, gênero e suas preferências sexuais.






























































