Leio: da melhor idade
Ouço: para terceira idade
Falo: sou idosa, dá licença!
Vejo: (na mídia) felicidade imposta a mim.
Nada do que meus sentidos captam muda a condição de que somos velhos; ou seja, a Natureza embrulha o ser humano no Tempo dela e não no nosso.
Queiramos ou não, estamos inclusos nos protocolos médicos na categoria de velhos, porque é o que somos e como nos sentimos. A mídia e a sociedade nos enxergam como na “melhor idade”. Uma definição perniciosa e uma mentira lavada de quem a inventou.
Velhos não estão na melhor idade. Estão na pior idade. A “melhor idade” é uma imposição decretada por jovens.
Senão, vejamos:
Não somos percebidos:
- De termos usado a caneta tinteiro e a caligrafia para nos comunicar.
- Do custo em superar códigos enraizados em nossos hábitos e costumes.
- Do estresse que passamos para nos adaptar às mudanças – continuamente substituídas – instaladas no nosso mecanismo de sustentação.
- De que nossas perdas,um dia, foram conquistas.
- De que nossa medida de tempo – já na reserva – não é mais a fantasia dela ser infinita.
- De que buscar o prosaico copo d’água, entre o quarto e a cozinha, no meio da noite, cansa.
- De que a mente esquece e o corpo dói.
- De que o corpo não obedece à vontade de levantar-se de sofás baixos e cadeiras sem braço.
- De que somos cobrados a ser “velhos de idade e jovens de cabeça.”
- De que frustrados e deprimidos, não conseguimos estar à altura da expectativa imposta.
- De que pagar meia – entrada, como as crianças e estudantes, muitas vezes nos fere a dignidade e acentua o peso das rugas.
Contudo, há contradições: pessoas de idade que vivem de sua minguada aposentadoria devem, sim, beneficiar-se do direito à meia entrada. Uma carteirinha honesta faria justiça social! Por outro lado, nas filas de aeroporto, famílias numerosas de jovens usam a presença do idoso para furar a fila. A leniência dos encarregados e a falta de educação cívica desses jovens equiparam -se à audácia de velhos “treinados nas academias” que estacionam seus carros em vagas preferenciais sem necessidade física na vaga para idosos.
Portanto:
Aos meus setenta anos, as conquistas e suas contradições chegam até mim em sinais trocados. Como não acredito em soluções arbitradas simplesmente como certas ou erradas, atenho-me ao politicamente correto para evitar polêmicas inúteis – uma tendência atual que facilita o equacionamento de questões cada dia mais complexas que assombram os idosos.
Deixemos, portanto, que a teoria resolva as contradições inerentes às Sociedades e aos Homens!






























































