Todos os passados contêm uma verdade feia. A bonita são as lembranças.
Passaram-se anos apostando na bonita, desejando-a como a perfeita verdade. Não se aperceberam que a verdade única não existia.
Um dia, ele bateu a porta de casa: – Para sempre – ele disse.
Do lado de cá da porta, ela deixou para trás uma verdade feia.
A biografia de Clarice Lispector, por Benjamin Moser, foi o sopro que me inspirou a escrever sobre uma dessas feias verdades.
Ele, o marido, abateu-se quando a angústia o fez sofrer pela intensidade do desconforto. Na esposa, a angústia a fez sofrer ao adentrar nas verdades feias e bonitas de seu casamento.
Eles casaram. Não era um amor “enquanto durasse”, era para ser um amor para sempre. Após anos, o casamento ruiu.
Os domingos longos esperavam, preguiçosos, a segunda-feira. Sabia-se que o silêncio cheio de hábitos dominava. O Jornal Nacional encobria o tédio quando o locutor reportava a violência e a barbárie. A monotonia apega-se à realidade e se acostuma.
Tornaram-se daqueles casais observados em restaurantes: dois seres ausentes do movimento surdo da sedução, mas vivos no silêncio pesado do mau humor.
Cada um segue, morosamente, imaginando uma separação. Inseguros se a verdade feia do outro é verdadeira, ela fica boiando no remanso da desconfiança. A tentativa é levar adiante e construir um castelo sem ponte ou desejar uma ponte levadiça.
Este é o modelo de um casamento considerado “bom” até o momento em que a verdade feia transborda.
É a traição da esperança. A traição e a esperança saem juntas pela porta.






























































