Embarcada num avião, eu atravessava o Atlântico com um medo antigo: o breu lá embaixo me deixa inquieta. As luzes se apagam, quase todos ali dormem mal. Outros, como eu, mantêm os olhos abertos, como se sustentassem o avião no ar, com medo de que a morte nos pegue dormindo. Entremeada da angústia de encontrar-me sem chão, a sensação de culpa me rodeava. Por força maior, na imaginação, eu estava deixando “voar”, no primeiro turno, o meu voto no L. E se ele perdesse? Eu não conseguia afastar o medo maior: a votação majoritária em F. Naquelas doze horas, conjecturas e cenários terríveis sobre F. presidente do Brasil traduziam minha impotência. Depois me perguntaria: meu voto teria feito diferença?
Fez! Desembarquei ainda a tempo de viver as últimas horas históricas, convicta de que o desejo mobilizado pela maioria significativa de brasileiros contra a família dos Irmãos Metralha não tomaria o poder. Meu voto contou, penso hoje, aliviada.
Ao aterrissar de volta ao meu país, mais uma vez confirmei ser o Brasil diferente de outros países, mesmo! É único!
Os envelhecidos brasileiros despertaram um Brasil silencioso e mal cuidado.
Além dos demais efeitos de transformação que certamente ocorreram nesse segundo turno, no quesito dos que envelhecem, brotou uma das melhores qualidades do povo brasileiro: a generosidade natural de cada filho que carregava seu velho para um destino. Jovens se aperceberam do direito, não só deles, mas também de nós, velhos, de viver a Existência Soberana do Brasil, noção guardada em algum canto do coração que já bate velho.
No dia 25 de outubro, um segundo depois das 19 horas, meu sentimento foi agudo. Nós velhos pudemos festejar o nosso voto. Não foi a euforia que tomou conta do meu coração. Ele ficou em silêncio aos acordes surdos do Hino Nacional, seguro de que o tempo é mesmo o único soberano sobre nós. Nós, os velhos, temos que agradecer aos jovens e confiar neles mesmo depois de partirmos. Nós e eles demos um voto de confiança a um octogenário. Mais um fenômeno brasileiro quanto à generosidade do seu povo.
Quero estender este sentimento mesmo a quem não presenteou um velho guerreiro com a vitória. O Brasil é do bem, mesmo que o bem e o mal cozinhem na mesma panela!
Obrigada! Beijo, jovens e velhos, como dizem, no coração.






























































