Tornou-se insano acompanhar o que o brasileiro tem ouvido, falado, achado e propagado nas redes, a torto e a direito nos últimos meses. A ponto mesmo de perder o contato com a realidade ponderada. Nesses dias, percebi-me tomada por uma onda de proporções assustadoras, o que me obrigava a responder a toda sorte de insultos, opiniões reles sem fundamentos, rezas ideológicas, ataques pessoais e chulos etc.
Ao longo da semana, espantada, fui recebendo, no meu Instagram, um número de likes jamais imaginado. Obtive quase oitenta mil coraçõezinhos num post em que me posiciono sobre a atual corrida eleitoral.
Em postagens anteriores, quando indicava um livro ou fazia alguma observação que considero divertida de ser ressaltada, uma receita ou um meme chegava a 200 no máximo, a 500 likes. Isso para deixar claro aqui que não sou bem uma influencer.
Tomei consciência de que uma espécie de onda havia tomado conta do meu espaço físico e emocional. Deixei o celular de lado e tentei voltar aos meus escritos. Impossível! O medo invadiu-me quando recebi uma lista com mais de mil nomes de pessoas vítimas de perseguição por não atenderem a uma opinião de um determinado grupo: e o meu nome estava entre eles!!!
Naquele momento entendi como se espalha a insegurança institucional. Primeiramente, ela se oculta para depois, lentamente ir validando a política repressora. Mas o que eu fizera para estar numa lista de perseguidos? Apenas manifestei meu medo e minha insegurança de que personagens de caráter duvidoso, que personificam grupos de contraventores, tomassem o poder no Brasil e passassem a governar de modo fundamentalista. Apenas isso!
Confesso que, ao ler meu nome impresso, horror e indignação tomaram conta do meu ser. E pior, tive a certeza de que a nossa liberdade, conquistada a tão duras penas, está sendo corrompida, pelas beiradas, sociedades afora. Lembrei-me da defesa que Zola fez de modo tão bonito a favor da justiça para Dreyffus, um judeu acusado de traição à Pátria.
Lembram-se do filme em que um professor de história, na Califórnia, ao não conseguir responder de forma teórica aos seus alunos sobre a atração pelo fascismo, cria um movimento na classe de aula a que batizou de “A Terceira Onda”? Pois bem: à revelia do professor o grupo cresceu rapidamente dentro e fora da classe e gerou delações e ataques violentos a quem não concordava com a saudação criada por Hitler, com o extermínio de minorias, com o domínio repressivo da polícia.
O resultado foi surpreendentemente real: como é fácil criar a perda da individualidade, obliterar pensamentos, acordar o poder do ódio! E eu digo como parece ser inalcançável a paz entre os seres humanos.
Grupos armados, virulentos e essencialmente belicosos, guerreiros alastram-se em terras brasileiras. Meu medo essencial é que o mal dessa obsessão voltada para a intolerância se transforme num pecado capital em territórios laicos e democraticamente estruturados ou em vias de, como é o do Brasil.
Minha esperança é que continuemos a viver em um país laico, democrático e soberano. Que continuemos a buscar a paz e a confraternização entre nós, o povo. O povo que habita o mundo.






























































