Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Transcrevo trechos de um artigo que acredito contribuirá com um dos sentimentos mais escuros da nossa alma nesse momento acerbado pela pandemia. O artigo é de Simon Critchley para o jornal americano New York Times.
O artigo descreve o cenário que cada um de nós pode estar vivendo, e quem sabe, pode vir a aliviar a enorme decisão e responsabilidade de continuar a ficar em casa. Seu conteúdo é filosófico e eu não saberia escrever tão clara e eficazmente quanto o texto do articulista (abaixo). Acredito que abre novos recursos para reflexões que podem nos guiar nesses momentos em que o medo e os pensamentos sobre a nossa finitude emergem em nossas cabeças.
Como foi o domingo de páscoa de vocês? Via internet? Desinfetaram os ovos que receberam por Delivery? Ao vivo, quantas pessoas entorno da mesa, o cheiroso bacalhau foi degustado?
Passei o dia irritada. Irritada com as notícias do Planalto. Irritada com os três poderes da República. Irritada porque perdi a hora de acordar, provavelmente cansada da solitude, irritada com a bateção de metais de uma obra em frente do prédio, e como se não bastasse irritada com a minha falta de atenção ao cozinhar o arroz. Explico:
Taxidermia: são os pássaros que voam no museu de história Natural de Londres. Foto: Bettina Lenci
Hoje o dia começou meio que inesperado! Esqueci que se pagava contas! Tanto que não sei em que dia da semana nos encontramos, guardei os pagamentos datados como se não mais existissem quando em quarentena.
Contas a pagar com apenas a metade do saldo “normal “na conta do banco. O que fazer?
Hoje vou transcrever um poema como sendo uma página do Diário em Quatro Paredes. É do meu poeta preferido Mario Quintana.
Fui à biblioteca buscar o livreto de seus poemas, depois que li no jornal duas notícias, quase escondidas, que para mim são importantes. Vou repassá-las a vocês e depois transcrevo o poema que chegou a me tocar nesse momento que nós, obedientes, permanecemos em casa.
Onde moro os apartamentos “convivem” suficientemente perto para que se ouça e veja o que se passa no apartamento em frente. Por exemplo, minha cozinha, que fica no fundo, dá para a sala de visita e para os quartos onde mora uma família.
Hoje senti mau humor. Não sei se foi por conta da difícil tarefa de me manter entre quatro paredes ou porque tive um sonho. Talvez ambos, e a perspectiva de submeter-me aos terapeutas de plantão é estranha, pois teria que contar precedentes e histórias de vida. Pelo que entendi, essas almas cidadãs estão atendendo as angústias, medos, pânicos, decorrentes da situação, sintomas que, por enquanto, ainda não alteraram o meu cotidiano. Achei esta iniciativa tão importante e benéfica, que quis compartilhar com vocês.
Observem que hoje, o dia em que escrevo, é 4 de abril enquanto vocês encontram a indicação de que é o 5º texto publicado no Diário Entre Quatro Paredes. Faltei um dia. Vai acontecer outras vezes, provavelmente. Meus álibis: dor nas costas ou cansaço excessivo com a concentração em tarefas de autopreservação.
Hoje foi um dia especial.
Dor nas costas é algo comum, em jovens e idosos, como nos denominam aqueles que nos respeitam!
Pois é, tomei coragem, vesti minha fantasia de Zorro, luvas e máscara, e cheguei na fisioterapeuta que há anos me atende com muito bom resultado. O ar em casa estava ficando rarefeito, apesar de todas as janelas abertas sentia-me uma santa na redoma de vidro.