Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Ando de táxi na cidade de São Paulo. Fiz as contas e sai mais barato. Além de não ter despesa com o IPVA e demais obrigações, ganho a amortização do carro ao longo do tempo.
Mas o que ganho mesmo é a liberdade de olhar para fora…
Venho de um lugar onde não se toca a balalaica.
Todo fim de tarde os acordes cismam com uma história alojada no meu peito.
A brisa sopra sobre um campo amarelo de trigo…
Eu queria ouvi-lo e o ouvi, como uma criança de poucos anos ouve em seu pequeno coração que cresce em solitária paz. Foi dentro da Igreja do meu colégio que aprendi a falar…
Onde moram meus antepassados?
à esta porta não tenho acesso.
Cresço à sombra de minhas raízes.
Sou um habitante sem pátria consagrada…
Reminiscências,
Feito jabuticabas,
Tombam na caçamba
Seus caroços cuspidos
Sou um ponto.
Um ponto de silêncio circunscrito.
Um ponto só: Ponto!
Um ponto em passeio pelo espaço,
Um ponto com biruta.
Em algum lugar tenho que existir,
Em partículas, como estrelas no céu.
Aqui aprendi a amar
A receber
A me unir.
Aqui aprendi a conceber…
Crianças gostam de abrir a geladeira. Quando eu era criança, abria várias vezes por dia, mesmo sem fome. Às vezes por tédio, outras por vontade de lambiscar. Era um movimento automático. Eu ficava em frente dela, a porta na mão…
Um dos prazeres em São Paulo é ir aos sábados a uma livraria e lá se perder pensando no que outros já pensaram por nós e, saciados, tomar um café com brioche na lanchonete da livraria. Este era o cenário de uma conversa proibida que ouvi, hábito deselegante, mas sempre assunto para uma crônica. O risco é pegar…
Em cima da mesinha, seus livros. Sobre a cadeira, a roupa usada do dia; espalhado sobre o banco, o resto. Um abajur e o vaso com uma flor oferecida. Sombras criadas no pátio, amareladamente iluminado, adentravam por duas grandes janelas sem venezianas. Esvaído de tempo, o pano da cortina marcado por cada hóspede que consigo…