Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Um avião cruza o céu. Olho-o, sonolenta, pela janela fechada do carro. Com o outro olho, estou atenta ao iPhone. À minha frente, carros demais, gente demais. Todos parados. No ponto de ônibus, as pessoas observam a avenida à espera do coletivo, mas os dedos não param de teclar em seus smartphones. Uma verifica se…
A busca incansável de transformar pessoas de carne e osso em criações de IA seria uma forma de driblar o medo da morte? A resposta mais imediata é sim – é a versão contemporânea de nosso desejo por eternidade. Como distinguir o real do artificial nesta não mais novidade? Estes IATOS, digo, seres criados pela…
Leio: da melhor idade Ouço: para terceira idade Falo: sou idosa, dá licença! Vejo: (na mídia) felicidade imposta a mim. Nada do que meus sentidos captam muda a condição de que somos velhos; ou seja, a Natureza embrulha o ser humano no Tempo dela e não no nosso. Queiramos ou não, estamos inclusos nos…
Por volta de 1986/87 discutimos na empresa onde eu trabalhava se deveríamos comprar um Fax por US$ 2.000,00. Havia os que eram a favor porque não teríamos mais problemas com envios e recebimentos de documentos, dispensando assim o boy. Outros não concordavam com o gasto por ainda termos o telex, uma imensa caixa ensurdecedora a…
Caminhar pelo quadrilátero dos jardins é uma aventura de cross country, tantos são os obstáculos a superar entre buracos e raízes de árvores expostas. Enquanto tomo o máximo de cuidado para não cair nessas armadilhas, imagino como será minha velhice percorrendo novos caminhos. Senhoras idosas dependuram-se no braço das funcionárias que, diligentes, não as deixam…
Passo diariamente ao lado de uma loja com marquise, cujo portão de ferro está baixado. Em frente a esta porta, um catre feito de madeira de construção segue o desenho de uma cadeira de praia. Uma” chaise-longue” de ripas e encosto inclinado sob um guarda-sol branco, conhecido por “ombrelone”. (Por que será que num país…
“Não está no Sistema” é a resposta que ouvi durante quinze dias ao tentar resolver meu problema de internet. Duas semanas e quinze protocolos depois, foi o tempo que uma operadora levou para trocar um modem inutilizado. No decurso do meu tempo despendido e na tentativa de distrair-me, tentava localizar se os atendentes falavam português…
Confabulando entre dois mundos, senti-me um benjamim. Benjamim é aquela peça que plugamos em uma tomada, com três pontos nos quais podemos inserir mais três correntes elétricas. Necessitamos dele sempre na emergência. Numa festa, para fazer uma extensão do fio do abajur até o som; quando temos que bater algo no liquidificador e, simultaneamente, usar…
Num domingo de Páscoa, meu companheiro saiu pela porta e não voltou mais. A porta deu um estalo e ao fecha-la, achei que ia morrer, a mão ainda na maçaneta. Ao me defender desta vontade, pensei na Ressurreição e o martírio de Cristo antes da Crucificação
Do chão não passa, dizia minha avó Abigail dos Santos, mãe de santo de conhecido terreiro em Salvador, BA. Sempre que algum aflito com dor no coração ou na alma – não sei se há diferença, sendo ambas tiradas literárias – a procurava, ela ouvia a história, jogava os búzios, dava alguns conselhos e por…