Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Acho que a Rede Social foi criada para aproximar pessoas, nivelar costumes, enfraquecer preconceitos e adiantar o tempo, mas o feitiço apoderou-se do feiticeiro. Lembro de ter construído um telefone com um fio e uma lata em cada ponta. Comunicávamo-nos, minha vizinha e eu, falando para dentro da lata, cada uma da janela de sua…
Nos almoços em casa, quando meus filhos vêm para a macarronada de domingo, sinto-me uma mãe de celofane.
Pode ser que exista: Um ponto morto que reside entre a alma e o cotidiano. É possível que exista a felicidade retida neste lugar. É possível que, neste lugar, o tempo petrifique a soma das horas e não passe. Se este espaço arejado florescer, a vida torna-se alegre, sem razão específica. Se existir, é possível…
Hoje entendi porque os votos de felicidade no dia de seu aniversário chegam acompanhados de “muita saúde”! Hoje completei 70 anos e acordei doída. Este doído do corpo foi o Tempo que pousou sobre mim ao não conseguir segurá-lo na palma da mão. A sua bruma embalou-me num sonho acordado. Não consegui evitar, mesmo doída,…
A Perda – vazio que rasteja como um animal humilhado por dentro da gente, silencioso à noite, feroz ao raiar do dia – humaniza o Homem. A gosma verde gruda nas paredes da alma e transforma-se em Dor. A grossa capa, como um tapete de trama esburacada, gruda no corpo e ilude a Solidão. A…
Os porta retratos eram lindos. Quadrados, redondos, minúsculos, em madeira, prata ou ouro entalhado ou lisos. Brilhantes ou opacos. Dispostos em cima de qualquer superfície, um estranho, ao entrar numa casa já podia, sem nunca ter estado lá, adquirir certa intimidade com os moradores ou, presenciar situações de momentos como casamentos, viagens e nascimentos. Podia…
Desde criança não gosto de acordar. Só não era um sacrifício porque, apenas amanhecia entre um cochilo e outro, punha-me a pensar sobre a vida, sempre acompanhada da preguiça sem culpa, vazia, aquela que faz a gente ficar conversando com a alma que não dorme e pergunta se ela existe.
Olhei para uma taturana gorda, longa, esverdeada, listrada de amarelo, mas ela não olhou para mim. Estava imóvel, a menos de cinco cm do meu rosto, sobre a almofada que me servia de travesseiro. Fiquei intensamente muda como uma naja a me hipnotizar. No mesmo instante lembrei que, criança, neste mesmo sítio, uma taturana, a…
Menina eu passava uma temporada em sua casa. A imagem gravada na retina é dela, de costas, quase um duende, mexendo a borbulhante geleia com uma comprida colher de pau, os passarinhos vindo bicar os restos de manteiga no parapeito da janela da sua cozinha. Meu encanto era com seu gestual de malabarista ao escumar,…
Seus corpos procuram, movimentando-se ora para os lados, ora para as beiras, ora para o centro e margens, o acesso à alegria e prazer; procuram a vertigem do acontecendo, a humanidade em nós, o momento achado. Os corpos usados sem limite de fronteiras. A tentativa dos amantes é prolongar o segundo seguinte no qual eles…