Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Ouço um clamor, um brado surdo abafado: América Latina. É a batida de um jovem coração, largado no sofá ao meio dia. Ouço a respiração intoxicada, rinoceronte buscando ar. A sensação é de semiconsiência, semimorte. A agonia pode levar tempo, mas o bicho é forte, encontrará fôlego, sobreviverá. Brasil, neste continente, nos acordes do seu…
uma porta outra porta ambas iguais brancos diferentes nem o pintor nem o fabricante da tinta são culpados um cano outro cano ambos iguais inundam o serviço feito nem o engenheiro nem o encanador são culpados uma dobradiça outra dobradiça ambas iguais uma enferruja outra não nem o marceneiro nem o pintor são culpados uma…
Para a direita,
o velho mundo.
Para a esquerda,
terra à vista.
Abaixo da linha do Equador.
Espelho.
Vidraça.
Telhado de vidro.
Espelho de sombras alheias,
Cheias de espíritos
Mal-assombrados.
Meu avô, velho coronel, oriundo da pequena aristocracia baiana, ficava sentado em frente a uma mesa de jacarandá, à luz de uma ampla janela iluminando, por horas seguidas, vendo um álbum de fotografias. O álbum era tão antigo quanto os 101 anos que ele viveu. Senil, folheava, página por página, voltando sempre à primeira. Ali…
Acho que a Rede Social foi criada para aproximar pessoas, nivelar costumes, enfraquecer preconceitos e adiantar o tempo, mas o feitiço apoderou-se do feiticeiro. Lembro de ter construído um telefone com um fio e uma lata em cada ponta. Comunicávamo-nos, minha vizinha e eu, falando para dentro da lata, cada uma da janela de sua…
Nos almoços em casa, quando meus filhos vêm para a macarronada de domingo, sinto-me uma mãe de celofane.
Pode ser que exista: Um ponto morto que reside entre a alma e o cotidiano. É possível que exista a felicidade retida neste lugar. É possível que, neste lugar, o tempo petrifique a soma das horas e não passe. Se este espaço arejado florescer, a vida torna-se alegre, sem razão específica. Se existir, é possível…
Hoje entendi porque os votos de felicidade no dia de seu aniversário chegam acompanhados de “muita saúde”! Hoje completei 70 anos e acordei doída. Este doído do corpo foi o Tempo que pousou sobre mim ao não conseguir segurá-lo na palma da mão. A sua bruma embalou-me num sonho acordado. Não consegui evitar, mesmo doída,…
A Perda – vazio que rasteja como um animal humilhado por dentro da gente, silencioso à noite, feroz ao raiar do dia – humaniza o Homem. A gosma verde gruda nas paredes da alma e transforma-se em Dor. A grossa capa, como um tapete de trama esburacada, gruda no corpo e ilude a Solidão. A…