Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
O Cara me ama e odeia, ri da minha cara. É mentiroso, sem educação, sensibilidade zero. Usa a palavra em profusão, mas não fala; é um cartunista, um fotógrafo, piadista, escritor, músico, saudosista, técnico e muitas vezes, um boca rota. Às vezes um senhor (a) de idade, solitário. O CARA espalha-se pelo mundo, subentendo-se com…
“Damasceno, quem é esta mulher que chora”, perguntou ao ar rarefeito, D. Laura, ao lado do caixão. Ela calculou ser uma mulher miúda, passada dos sessenta anos que chorava discretamente, lencinho de renda, olhos fixos no seu marido. “Será ela a tal”?
Cortinas e colchas de quartos de hotel são os marcos que identificam a circulação de muitas pessoas pelo mesmo espaço. A sensação é a de que cada uma que ali pernoitou levou um pouco da vida delas consigo. Sem dono, mesmo no mais luxuoso hotel, as cortinas e colchas parecem sempre velhas e abandonadas. Murchas! São…
Os japoneses enrolam o sushi com a mesma elegância com que arrumam um vaso de ikebana ou aparam um bonsai. Os dedos se movimentam sinuosa e rapidamente enquanto a palma úmida da mão acolhe o arroz para ser enrolado sobre o peixe. Sai um sushi por segundo, simétrico, branco e rosado. Enrolam no ori, uma…
Hoje recebi pelo correio, muito bem embalado o livro Mrs. Dalloway. Para obtê-lo aspirei todo o pó mágico dos sebos. Ah, que alegria encontrar títulos esgotados que tanto procurava! Por conta do desejo de me conectar com Virginia Wolf, comecei a lê-lo imediatamente, sem saber que viveria uma experiência inédita: li a história sob…
Todos os passados contêm uma verdade feia. A bonita são as lembranças. Passaram-se anos apostando na bonita, desejando-a como a perfeita verdade. Não se aperceberam que a verdade única não existia. Um dia, ele bateu a porta de casa: – Para sempre – ele disse. Do lado de cá da porta, ela deixou para trás…
O estourar de fogos de artifício é um hino à vida. Mas é também um encerramento: o destino que se cumpre como o apagar do clarão no céu. Para trás, ficou o que criamos. À frente, a esperança de voltar a olhar para o céu e, ao presenciar o novo espocar de luzes, saber que…
DC3 DC4 DC5 DC7 Boeing, Supersônico, Jumbo, DC340 -300… e tantos outros modelos de aviões ao longo dos anos. No começo levavam 50 passageiros, depois 150, hoje 500 para mais. A quantidade de banheiros é que ficou desproporcionalmente igual. Onde se concentra a maior parte dos passageiros, aumentaram um. Na classe executiva continuam dois para…
Hoje tomei meu copo de água habitual. Existe uma jarra de plástico laranja em cima da pia que contém água filtrada para facilitar o acesso a um copo de água. Como costumo passar por aquele local com pressa, a caminho da porta de saída, sempre atrasada, mas com sede, não tenho tempo de ficar segurando…
“Olá, beleza, jovem, moça, linda”! Com tais adjetivos sou atendida na feira de domingo por homens sérios, empreendedores, brigando com a banca vizinha pela féria do dia – e não posso deixar de sorrir. Acabo não comprando na banca em que a cebola está mais barata porque na outra serei chamada de jovem. E quantas…