Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Abro meio olho. Alvorece através da cortina. Quanto tempo ainda falta para eu me levantar? Preciso me certificar com precisão: lembro que o relógio chinês que comprei na papelaria – encantada com o fato dele projetar no teto a hora em vermelho – na segunda manhã igual a esta, já estava inutilizado. Conformo-me em acompanhar…
Fiz tudo que meu amigo me pediu antes de morrer. Joguei suas cinzas ao vento na encosta da montanha mais alta que já havíamos escalado. Surpreendi-me com a sensação de que, se meu amigo tivesse sido enterrado no cemitério, ainda estaria comigo. Era um amigo embaixo da terra, presente com seus ossos. A cremação, porém,…
Parodiando Kant, o conceito de mundo é uma abstração que só o homem é capaz de criar. Cidade grande é como bandeira sem mastro: não tem dono, mas indica onde fica. São Paulo, por exemplo, tremula sem mastro, refúgio dos seus habitantes, os paulistanos. Conheci um artista dos anos 70, sem sucesso algum, que…
A sucuri estrangula sua presa, de surpresa. A dor, lerda, Sufoca o corpo. Quero estar viva na hora da minha morte!
Depois do meio dia sou minha crônica amanhã pó jogado ao vento das seis. Hora sagrada do Agnus Dei a vida vai dormir para morrer de manhã. O Tempo se desliga Eu viro pó como ele ventania.
Um dia, uma gata deu cria na gaveta do armário do meu pai, ele não viu e fechou a gaveta, amassando um dos filhotes. O filhote era preto. Havia sangue nas camisas brancas, não muito. Conclui que meu pai não era um assassino de gatos, pois havia fechado a gaveta de noite, a luz apagada.…
O quarto de um convento é um quarto de passagem no qual se entra, mas não se paga na saída. Se suas paredes fossem páginas escritas de uma revista feminina, estas estariam na seção de perguntas e respostas aos consultores sobre sexo. Porém, como são escritas em papel bíblia, elas castigam quem ali as inscreveu.…
Retocamos pinturas e rugas. Irretocável a dor perfeita. Irretocável!
A alma tem medo
afunda suas unhas
em torno do caule.
Com o dedo,
Toco o medo.
Ela se fecha anêmona.
Um dia, nas férias, encontrei-me dentro de um acampamento, dormindo num beliche, tendo que aprender a montar a cavalo, jogar queimada e correr com um saco de batatas ou um ovo na colher…