Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Eu me acho excluída! Não defendo ou condeno o feminismo (que coisa antiga!), mas confesso-me sem espaço para emitir o quê e porquê penso, sem que isso seja considerado correto ou incorreto. Acho que o “correto” em confronto com “o não correto” tem levado o pensamento ocidental para um beco sem saída. Incita a extremismos,…
A história de Sahra é infinita de possibilidades, mas Sahra morreu e me deixou com uma carta na mão.
Sahra foi minha vizinha durante anos e eu a conhecia apenas pelo seu bom dia, sua incansável labuta junto a um canteiro, sob qualquer tempo e estação.
Armando não conseguia dormir sozinho em um quarto desde criança. Habituara-se a dormir ao lado dos pais e irmãos, apenas separado por uma cortina de lençol.
O Aranha, como o chamavam na intimidade, não era um homem bom. Tecia sua rede fina e negra por sobre pessoas e fatos. Não maltratava as pessoas, ao contrário, estampava ar de compreensivo, sorria devagar mostrando dentes amarelados, assim como os dedos de nicotina e muito café.
Ela não era mais tão jovem para sentir tanta saudade dos pais, mas imaginou-os ainda vivos e se entristeceu. Por conta desta tristeza irrecuperável soube ter chegado a hora de visitá-los depois da última vez que chorou à beira dos túmulos ao enterrá-los, vinte e cinco anos atrás.
Quarta-feira de cinzas é o dia da introspecção sobre a farra solta, sem medidas para ser feliz. Mergulho na saudade do brilho, das cores e marchinhas. Lembrança da alegria e sorriso aberto sem motivo a não ser o do momento pleno e inconsequente. Quarta feira de cinzas é o dia seguinte dos acordes que ressoam…
O Cara me ama e odeia, ri da minha cara. É mentiroso, sem educação, sensibilidade zero. Usa a palavra em profusão, mas não fala; é um cartunista, um fotógrafo, piadista, escritor, músico, saudosista, técnico e muitas vezes, um boca roto. Às vezes um senhor (a) de idade, solitário. O CARA espalha-se pelo mundo, subentendo-se com…
“Damasceno, quem é esta mulher que chora”, perguntou ao ar rarefeito, D. Laura, ao lado do caixão. Ela calculou ser uma mulher miúda, passada dos sessenta anos que chorava discretamente, lencinho de renda, olhos fixos no seu marido. “Será ela a tal”?
Cortinas e colchas de quartos de hotel são os marcos que identificam a circulação de muitas pessoas pelo mesmo espaço. A sensação é a de que cada uma que ali pernoitou levou um pouco da vida delas consigo. Sem dono, mesmo no mais luxuoso hotel, as cortinas e colchas parecem sempre velhas e abandonadas. Murchas!…
Para P. Os japoneses enrolam o sushi com a mesma elegância com que arrumam um vaso de ikebana ou aparam um bonsai. Os dedos se movimentam sinuosa e rapidamente enquanto a palma úmida da mão acolhe o arroz para ser enrolado sobre o peixe. Sai um sushi por segundo, simétrico, branco e rosado. Enrolam-…