Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.

A perfeição possível

Pode ser que exista: Um ponto morto que reside entre a alma e o cotidiano. É possível que exista a felicidade retida neste lugar. É possível que, neste lugar, o tempo petrifique a soma das horas e não passe. Se este espaço arejado florescer, a vida torna-se alegre, sem razão específica. Se existir, é possível…

Jogo da Velha

Hoje entendi porque os votos de felicidade no dia de seu aniversário chegam acompanhados de “muita saúde”! Hoje completei 70 anos e acordei doída. Este doído do corpo foi o Tempo que pousou sobre mim ao não conseguir segurá-lo na palma da mão. A sua bruma embalou-me num sonho acordado.  Não consegui evitar, mesmo doída,…

O Divino

A Perda – vazio que rasteja como um animal humilhado por dentro da gente, silencioso à noite, feroz ao raiar do dia – humaniza o Homem. A gosma verde gruda nas paredes da alma e transforma-se em Dor. A grossa capa, como um tapete de trama esburacada, gruda no corpo e ilude a Solidão. A…

O Porta Retrato

Os porta retratos eram lindos. Quadrados, redondos, minúsculos, em madeira, prata ou ouro entalhado ou lisos. Brilhantes ou opacos.  Dispostos em cima de qualquer superfície, um estranho, ao entrar numa casa já podia, sem nunca ter estado lá, adquirir certa intimidade com os moradores ou, presenciar situações de momentos como casamentos, viagens e nascimentos. Podia…

Presença

Olhei para uma taturana gorda, longa, esverdeada, listrada de amarelo, mas ela não olhou para mim. Estava imóvel, a menos de cinco cm do meu rosto, sobre a almofada que me servia de travesseiro. Fiquei intensamente muda como uma naja a me hipnotizar.  No mesmo instante lembrei que, criança, neste mesmo sítio, uma taturana, a…

A Dois

Seus corpos procuram, movimentando-se ora para os lados, ora para as beiras, ora para o centro e margens, o acesso à alegria e prazer; procuram a vertigem do acontecendo, a humanidade em nós, o momento achado. Os corpos usados sem limite de fronteiras. A tentativa dos amantes é prolongar o segundo seguinte no qual eles…

O Amor nos Tempos do Instagram

Essa crônica não gira em torno de um casal, amor ou sexo. Gira em torno de uma  relação “instagranizada” “facebokizada” “whatsappizada”. Ilustra uma relação liquefeita através das redes sociais. São dois personagens que transam sob o vago “não sei”. M. é um explorador de regiões ermas. Das trilhas montanhosas, lá onde o oxigênio falta,  envia…