Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.

O Porta Retrato

Os porta retratos eram lindos. Quadrados, redondos, minúsculos, em madeira, prata ou ouro entalhado ou lisos. Brilhantes ou opacos.  Dispostos em cima de qualquer superfície, um estranho, ao entrar numa casa já podia, sem nunca ter estado lá, adquirir certa intimidade com os moradores ou, presenciar situações de momentos como casamentos, viagens e nascimentos. Podia…

Presença

Olhei para uma taturana gorda, longa, esverdeada, listrada de amarelo, mas ela não olhou para mim. Estava imóvel, a menos de cinco cm do meu rosto, sobre a almofada que me servia de travesseiro. Fiquei intensamente muda como uma naja a me hipnotizar.  No mesmo instante lembrei que, criança, neste mesmo sítio, uma taturana, a…

A Dois

Seus corpos procuram, movimentando-se ora para os lados, ora para as beiras, ora para o centro e margens, o acesso à alegria e prazer; procuram a vertigem do acontecendo, a humanidade em nós, o momento achado. Os corpos usados sem limite de fronteiras. A tentativa dos amantes é prolongar o segundo seguinte no qual eles…

O Amor nos Tempos do Instagram

Essa crônica não gira em torno de um casal, amor ou sexo. Gira em torno de uma  relação “instagranizada” “facebokizada” “whatsappizada”. Ilustra uma relação liquefeita através das redes sociais. São dois personagens que transam sob o vago “não sei”. M. é um explorador de regiões ermas. Das trilhas montanhosas, lá onde o oxigênio falta,  envia…

Ave Maria

A história de Sahra é infinita de possibilidades, mas Sahra morreu e me deixou com uma carta na mão.

Sahra foi minha vizinha durante anos e eu a conhecia apenas pelo seu bom dia, sua incansável labuta junto a um canteiro, sob qualquer tempo e estação.

Dr. Aranha

O Aranha, como o chamavam na intimidade, não era um homem bom. Tecia sua rede fina e negra por sobre pessoas e fatos. Não maltratava as pessoas, ao contrário, estampava ar de compreensivo, sorria devagar mostrando dentes amarelados, assim como os dedos de nicotina e muito café.