Na juventude, tive início profissional em história da arte, fotografia e reporter. Deixei de lado essas possíveis profissões para, durante o tempo que o destino me fez ser empresária porem, sem jamais deixar de me dedicar à escrita anônima. Gosto especialmente de crônicas e de criar histórias através de contos e novelas. Ao longo do tempo, construi uma visão de mundo mais sombria em busca de personagens alinhados às virtudes, às relações afetivas, erros e acertos nas suas vidas, acompanhando seus processos de transformação. Através destes recursos e de um olhar receptivo sobre o pensamento da alma, tento transpor para o papel o Real Cotidiano de todos nós.
Caminhar no quadrilátero dos jardins é uma aventura de cross country tanto são os obstáculos a serem vencidos entre buracos e raízes de árvores expostas. Enquanto tomo muito cuidado para não cair nas armadilhas, imagino como será a minha velhice andando por ai. Senhoras de idade dependuram-se no braço das empregadas que diligentemente não as…
Passo diariamente ao lado de uma loja com marquise, cujo portão de ferro está baixado. Em frente a esta porta, um catre feito de madeira de construção segue o desenho de uma cadeira de praia. Uma” chaise-longue” de ripas e encosto inclinado sob um guarda-sol branco, conhecido por “ombrelone”. (Por que será que num país…
“Não está no Sistema” é a resposta que ouvi durante quinze dias ao tentar resolver meu problema de internet. Duas semanas e quinze protocolos depois, foi o tempo que uma operadora levou para trocar um modem inutilizado. No decurso do meu tempo despendido e na tentativa de distrair-me, tentava localizar se os atendentes falavam português…
Confabulando entre dois mundos, senti-me um benjamim. Benjamim é aquela peça que plugamos em uma tomada, com três pontos nos quais podemos inserir mais três correntes elétricas. (Não saberia por que esta insignificante, mas indispensável peça, que rola pela gaveta na maior parte do tempo sem uso e que nunca encontramos quando mais se necessita,…
Num domingo de Páscoa, meu companheiro saiu pela porta e não voltou mais. A porta deu um estalo e ao fecha-la, achei que ia morrer, a mão ainda na maçaneta. Ao me defender desta vontade, pensei na Ressurreição e o martírio de Cristo antes da Crucificação
Do chão não passa, dizia minha avó Abigail dos Santos, mãe de santo de conhecido terreiro em Salvador, BA. Sempre que algum aflito com dor no coração ou na alma – não sei se há diferença, sendo ambas tiradas literárias – a procurava, ela ouvia a história, jogava os búzios, dava alguns conselhos e por…
Quem ler a carta vai se perguntar do porque do título, mas precisa primeiramente ler o que o autor quis dizer. Eu a encontrei, por acaso, amassada na lixeira da minha colega de escritório. Essa empresa nos confina em baias só identificáveis por que o ocupante deixa – ao sair do escritório – uma flor…
À noite, sombras claras projetam a imagem de gente solitária caminhando pelas alamedas da cidade grande. Minha sombra caminhava comigo, mas, cada vez que eu pisava na soleira de um prédio, ela se clareava, ao acender e apagar de luzes. São luzes que acendem automaticamente, não importa quem por ali passa – sombras intrusas que…
Numa madrugada de vigília, um dia de março de l984, reconheci na natureza a existência do tempo: “Este momento é tão totalmente solitário que não quero ser perturbada por qualquer desvio. Deixo-me ficar. Ao silêncio se entrelaçar com o tempo, ele nos envolve na primeira pele e nos acarinha. O tempo e o silêncio preenchem…
Embaixo do chuveiro me ocorrem pensamentos bizarros. Hoje, lembrei-me de Charles Chaplin, o criador de filmes que ilustraram, com precisão visionária, os principais eventos históricos do mundo moderno. Chaplin revelou a pobreza na figura do inesquecível vagabundo nos anos de depressão nos Estados Unidos. Seu inimigo foi representado por um homenzarrão cujas más intenções ficavam…